O amigo Gwydyon Drake postou na lista de discussão Dionísio o seguinte texto com a proposta que fizessemos guirlandas ou coroas virtuais para amigos, Deuses ou mesmo, desamores. Fiquei mesmo pensando no assunto, pois coroas destacam o sagrado... Guirlandas, um vínculo...
Pensei em coroas para minhas amigas medievais como um instrumento para sacralizar nossa amizade tão bonita e, em muitos momentos, muito divina. Para nós, uma linda guirlanda de acácias, girassóis e rosas cor-de-rosa, perspassadas por louros e folhas de videira.
Pensei em guirlandas para demonstrar meu vínculo com um Fauno da Floresta que, como eu, não gosta de dia dos namorados, mas sabe que o amor se manifesta em vários momentos, vários dias... até os de mau-humor... Para ele, uma guirlanda de flores de cereja, rosas brancas, canela e algumas pimentinhas rosa pra deixar a coisa sempre mais quente!
E por que não uma coroa para os que adoram um "recadinho", vivem de dores, burocracias e adoram perguntar aos outros sobre a nossa vida ao invés de nós mesmos e que vão usar essa coroa como uma carapuça... Bem, pra esses, uma coroa de post-it, urtigas e cartõezinhos de recarga de celular.
Segue um texto do Roberto Calasso, Retirado do livro Núpcias de Cadmo e Harmonia que nos fala de Coroas e Guirlandas, a intenção do texto á fazer com que pensem mais sobre elas.
Todo o mundo clássico, dos afrescos minóicos aos banquetes romanos, está saturado de coroas. Em Roma, o coronarius exercia uma profissão rentável porque eram inúmeras as ocasiões em que as coroas eram usadas. "Antigamente" , recorda Plínio, "as coroas serviam para honrar os deuses e os altares públicos e privados, as tumbas e os espíritos." Depois foram para as estátuas dos deuses, para as vítimas de sacrifícios, para os esposos. Depois para os atletas que venciam os jogos. Depois para os poetas ou guerreiros que se destacavam. Depois para a alegria dos banquetes. Os amantes penduravam coroas nas portas dos amados. E Cleópatra pensou também, um dia, em usar pétalas de uma coroa para envenenar Antônio. Das múmias egípcias aos polemistas cristãos, que tentavam evitar o uso pagão e nele recaem, seria possível dizer que o mundo mediterrâneo caminhou por longo tempo naquela imagem circular, naquelas flores significativas e efêmeras que variavam para cada circunstância. Tal era a onipresença das coroas que toda uma literatura desenvolveu- se sobre elas. Poucos argumentos pareciam tão adequados às competições de erudição entre os sofistas reunidos num banquete. Mas, se retrocedermos de suas amáveis conversas até a origem, o que vem ao nosso encontro?
A primeira coroa foi uma homenagem de Zeus a Prometeu, veio portanto como presente dos deuses para o homem mais ambíguo em relação a eles, ameaça e salvação. Aquela coroa devia equilibrar o sofrimento das correntes em que o próprio Zeus aprisionara Prometeu por muito tempo. Agora a fria pressão do metal transformava- se naquilo que Ésquilo chamou de "a melhor das correntes": um entrelaçado circular de folhas, ramos e flores. Era o mesmo processo pelo qual o cinto enfeitado de Afrodite se havia sobreposto à rede sufocante de Ate. E, como no cinto de Afrodite está tecido o engano, na coroa de Prometeu pode ser reconhecido o extremo desafio do engano. Lemos em Higino: ` `Nonnuili et iam coronam habuisse dixerunt, ut se victorem impune peccasse diceret". "Alguns dizem que (Prometeu) tenha conseguido uma coroa a fim de poder afirmar ter triunfado na impunidade da culpa." Como o cinto de Afrodite, a coroa é o vínculo da necessidade, mas agora aquele vínculo, desfeito em pétalas, capturado pela beleza, aproxima-se da delicada superfluidade do ornamento. O véu da aparência estética pode esconder atrás de si até o acaso de quem quer subtrair-se à necessidade, de quem ainda busca uma impunidade que andnké não concede. As palavras de Higino insinuam isso.
Mas a visão de Ésquilo é diferente. Para ele, a coroa doada a Prometeu é antipoina, uma "retribuição' que também é resgate. Prometeu a merecera ao revelar a Zeus que o filho dele com Tétis, caso viesse a nascer, acabaria por suplantá-lo. Assim, após ter enganado o deus, Prometeu o salvara. E agora permanecia entre os homens entregando-lhes uma outra revelação, depois do fogo: a coroa. Da corrente à coroa: era sempre um vínculo porque tudo de forte que toma conta de nós é um vínculo. Mas agora se suavizava, tornava-se frágil e delicado, cingia levemente a cabeça porque "na cabeça estão todas as nossas sensações". O que de tão precioso se encerrava naquela composição vegetal? A perfeição. Era o presente grego por excelência, o que foi procurado em todas as ocasiões.
Longo viria a ser o caminho para chegar às coroas distribuídas nos banquetes. A princípio, era essencial a separação na coroa. Primordial círculo mágico, dividia o mundo entre um fragmento sacro (a vítima sacrifical, a esposa, a estátua) e todo o resto. ` `Tudo aquilo que pertencia ao culto, pessoas e animais, vítimas ou símbolos, levava como sinal de consagração coroas ou vendas e, freqüentemente, coroas e vendas juntas." Então a coroa é "arauto do sacro silêncio", prelúdio da morte sacrifical. Mas, a partir daquela origem de culto, os gregos tomaram um caminho que foi somente seu. O sagrado é impregnador, invade uma donzela, uma fera, um simulacro e as preenche. Portanto o sagrado se realiza na plenitude e a plenitude na perfeição, uma vez que - nas palavras de Aristóteles - "nós só oferecemos aos deuses coisas perfeitas e íntegras". Fala-se, na Ilíada, de "jovens que enchiam ("coroavam". epestépsanto) de vinho as crateras". Coroa é a borda da taça, o ponto em que a plenitude se torna superabundância. A coroa é um templum móvel, concentra a escolha e o perigo. O perfeito atrai a morte para si porque não existe plenitude sem superabundância e o que sobra é o excedente que o sacrifício reivindica. "O que está cheio é perfeito e coroar significa uma forma de perfeição", lemos em Ateneu. Os animais a serem sacrificados eram coroados quando se tinha a certeza de que fossem perfeitos, "para não matar algo de não útil".
Antigamente, a coroa encerrava o sagrado, separando-o do mundo comum. No final, conterá o perfeito na sua plenitude auto-suficiente. Procedendo a um agudo e tácito deslocamento dos planos, os gregos subtraíram a coroa ao rito e ao sangue. Quiseram que celebrasse o perfeito enquanto tal. Então, não teria acompanhado uma cerimônia que se realiza mas sim algo que simplesmente existe. Coroa não é senão o grau mais alto, mais exposto da existência. Safo se dirige a Dica: "Cinge com suaves coroas os teus cachos, reunindo com tuas delicadas mãos ramos de anis; porque as Cárites beatas preferem observar o que é adorno de flores e afastam o olhar de quem não traz coroas". Dica representa a perfeição em si mesma, que ilumina o olhar benévolo das Cárites. Não é mais Ifigênia, convencida de usar a coroa como esposa, enquanto aquela coroa a isola como vítima que será degolada sobre o altar.
Os gregos retiraram do sagrado verso o perfeito, confiando na soberania do estético. Foi um afastamento muito breve, que se manteve enquanto durou a tensão entre o sagrado e o perfeito, até que sacralidade e perfeição lograram conviver sem diminuir-se. Mas nenhuma outra tribo o tentara. Se justamente em Safo encontramos pela primeira vez uma coroa que parece atrair para si mesma o olhar das Cárites, se com ela o uso ritual parece tornar-se um pretexto para o verniz estético, devemos este despreocupado imediatismo não mais à tó kalón, categoria demasiado grave, mas sim à abrosyné, palavra que não terá sucesso entre os filósofos e que não saberíamos traduzir sem misturar na mente a delicadeza e o esplendor, a graça e o luxo. "Eu amo a abrosyné", diz um outro verso de Safo e talvez seja sua única confissão indubitável.
Imagem: The Muse Erato by Francois Boucher and Studio